Relato - O Herói da Chama - Por Erick Moraes Chagas

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Relato - O Herói da Chama - Por Erick Moraes Chagas

Mensagem por Arthur em Ter Ago 29, 2017 4:33 pm

Prólogo

Solilóquio



Eu estava estudando na biblioteca da minha família, lendo mais um livro quando eu li as palavras que mudaram a minha vida.

~

A minha vida, até algum tempo atrás, era uma verdadeira desgraça. O primogênito é o herdeiro, o segundo filho virou padre, o terceiro filho conseguiu virar mercador, e o que sobra para o quarto filho? Nada. Então é assim que eu fui tratado: como nada. Não sei porque eles não me mataram quando eu era pequeno. Talvez por medo de pecado.

Maldito seja o pecado! Maldito seja o sentido que ele dá à vida! Por que a minha convicção, e todas as provas, todas as pessoas, todas as letras, sempre apontaram para o sentido da vida ser o pecado e o sofrimento. Por alguns instantes eu pensava que a vida fosse vazia e isenta de sentido, mas uma vida de sofrimento é muito pior.

Não! Minhas palavras não conseguem alcançar a efêmera fumaça que eu quero descrever. Mas é por aí: é como se eu estivesse sempre inalando fumaça, sempre tossindo, sempre sem ar, sempre sufocando, mas e a morte? Onde ela está, onde ela se esconde, e por que não está nessa eterna fumaça?

Mas voltemos ao plano concreto das coisas. Voltemos ao sofrimento da pele. Voltemos aos gritos, aos tapas, às fomes e sedes às quais fui submetido. Ao esvaziamento da alma...

Não adianta. Mal se sabe que o concreto e o sublime são intrínsecos.

Mas aquelas palavras me salvaram.

~

Eu queria que eles todos fossem para o inferno. Com todos eles, para o inferno. Mas até onde eu sei, mesmo com cada agulha, cada corte, cada veneno, eu não pude deixar de desejar que fôssemos todos um pouco melhores. Que não tivéssemos que passar por isso. Mas eu já fiquei anos demais à mercê deles, e eu sei a verdade, que é que eles todos poderiam ir ao inferno.

Todos nós poderíamos ir ao inferno, começando por mim. E tentar eu tentei. Facas e saltos, remédios e bebidas, mas a vida nunca me soltou. Eles nunca me soltaram. Malditos sejam todos eles! Que eu os veja todos no inferno.

Graças à Chama, eu não preciso mais deles, porque eu tenho a Chama. Mas não se engane, ela não é nenhuma deusa. Ela é tão somente a Chama. Essa energia, esse valor, essa linha que nos conecta ao mundo e a nós mesmos. A Chama que se apossou de mim quando eu li aquelas palavras.

Mal eu as li, eu peguei as minhas coisas, todo o dinheiro a que tinha direito, e saí. Não muito tempo depois, eu me encontrava sozinho sob as estrelas. E aquele céu era tão imensuravelmente acolhedor na sua vastidão maternal. Aquela terra fofa, tão viva sob os meus pés. Aquele vento, tão gentil em cada toque, em cada nota. A Noite, tão bela, e tão completa, tão certa de si, que eu só poderia ser parte dEla.

E no clímax da nostalgia, a Chama surgiu na minha mão, com toda a naturalidade do mundo.


A Chama surge das mãos de Phoe e se derrama no mundo.


Última edição por Arthur em Ter Ago 29, 2017 6:06 pm, editado 2 vez(es)
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1 – Inútil

Mensagem por Arthur em Ter Ago 29, 2017 5:50 pm

Não se passou muito tempo desde então. Eu lembro daquele dia como se fosse ontem, por que afinal, não dizem que o que é bom passa rápido? No entanto, se eu tivesse que falar objetivamente, eu diria alguns meses. Tempo o suficiente para me dedicar fervorosamente à espada, à magia e à alquimia. Tempo o suficiente para me acostumar com a Chama, e para ela fazer de mim... Forte. Verdadeiramente forte. Forte como jamais sonhei.

Depois disso não há realmente muita importância. Não até o momento em que eu acordei na Fronteira.

Cercado por vários desconhecidos numa cidade em ruínas, a opção que mais fez sentido para mim ter sido convocado aqui pela Chama, e essa foi razão o suficiente para mim. No entanto, eu não estava preparado. A primeira pessoa com quem eu conversei foi Doni, e depois de garantir um pouco de comida com ele, tentei sem sucesso conseguir alguns ingredientes, os quais ele não possuía. Fui falando aos poucos com os outros desconhecidos atrás do que eu quero e do que estava acontecendo ao meu redor. Eventualmente, encontrei Araglas tocando uma gaita recostado numa árvore.

Araglas parecia ser mais velho que eu; mesmo com o capuz verde-escuro sobre a cabeça, eu pude enxergar o seu cabelo castanho já mostrando algum sinal de idade, assim como os seus olhos. Eles eram escuros, cautelosos e compenetrados. Uma vez ou outra desviava o olhar como quem não estava realmente prestando atenção em nada, mas julgo que queria prestar atenção em tudo. Vestido como estava, não era uma atitude surpreendente. É algo digno de um andarilho experiente.

Perguntei o seu nome e se sabia onde encontrar alguns dos ingredientes que eu queria, e logo engajávamos em conversas mais profundas. Depois de revelar a minha perícia como mago, ele chegou a me mostrar algumas joias muito interessantes. Elas tinham algo trancado dentro delas, de uma forma ou de outra, mas nem mesmo a minha percepção era capaz de dizer tanta coisa. Ele tentou dá-las para mim, mas eu recusei. Não seria justo, e poderia ser perigoso.

Não demorou muito até irmos caçar ervas juntos. Dois seres que só posso chamar de tritões tinham aparecido, mas aquilo não era importante. Não agora, pelo menos. E de fato: ao chegarmos mais perto de um bosque nos arredores da cidade, presenciamos o que a Fronteira era de verdade: um coringa. Um portal, uma ilusão, eu não sei o que era, mas depois de uma ponte havia um deserto. E quando você piscava, era um pântano. E uma tundra. E uma floresta. E um mar. E uma muralha. Eu quase esperava ver o céu estrelado, ou a Lua, mas felizmente o cenário mudava sempre para algo mundano. Se é que se poderia chamar aquilo de mundano. Não havia nada que eu pudesse fazer em relação àquilo agora, então não me preocupei muito; mas Araglas ficou estupefato. Ele provavelmente nunca se emaranhou muito em magia. Talvez estupefato seja um eufemismo: ele estava desesperado, quase insano. Não demorou muito até que ele fosse para longe de mim tentar resolver o que quer que aquilo fosse.

Sentei num canto sozinho para trabalhar nas minhas poções, mas para a minha infelicidade, eu não estava sozinho. Eu logo senti um impacto detrás de um dos meus joelhos, fazendo-me ceder ao chão, e logo outro chute me fez engatinhar. Logo senti uma mão me puxando para cima e o fio de uma lâmina no meu pescoço.

– Eu quero que você me diga o que eu estou fazendo aqui, seu plebeu. – Uma voz sem escrúpulos disse. – Me diga! O que eu estou fazendo aqui?! Como eu saio daqui?

– Eu não sei. – Respondi, tentando manter um tom de voz neutro. – Se eu soubesse, eu te falaria. Eu sei tanto quanto você.

– Bom, alguém aqui deve saber. – E ele começou a me arrastar até chegar onde os outros estavam. Eu estava sendo de refém. O pensamento sozinho me deixou zonzo de raiva. Mas raiva não expressa bem o que eu quero dizer. Foi algo mais frio, bem mais frio. Logo ele foi confrontado e eu fui jogado ao chão, e me arrastei até a segurança. Vi que outra pessoa foi feita de refém, mas eu não podia fazer nada. Eu tinha uma poção de cura, mas eu não queria usá-la naquele momento. Por mais que doesse, aquilo não era uma emergência. Eu tive que achar outra opção. Outra opção...

Logo fui levado para uma curandeira, que sabiamente estabeleceu um Santuário inviolável, onde poderia curar todos com paz e tranquilidade. Lá fui restaurado à saúde plena, mas não sem antes ouvir da sacerdotisa que eu a devia um favor. Enquanto que eu fiquei um pouco acuado por isso, creio eu que não haveria problema se ela fosse uma pessoa boa. Quando saí de lá, o homem que me atacou, Kierkegaard ou Capa Azul, estava andando como se nada tivesse acontecido. Talvez ele tenha convencido os outros de que só estava desesperado ou qualquer outra desculpa tola, mas eu soube. Com o tom de voz, com o olhar depois de me largar no chão... Que ele era uma pessoa egoísta. Profundamente egoísta, ao ponto do sadismo. Da maldade.

– Eu sou dono e senhor do meu destino, e nada permanece em pé diante da minha vontade! Derrubar! – Eu lanço o feitiço, e estando à distância de um braço, Kierkegaard é atingido. No entanto, por alguma razão, ele não cai. Eu reconheci uma força incomum nele, e atribui a isso. Mas não posso arriscar. – Derrubar! – Dessa vez ele cai, com um arfar. Uma das minhas espadas já estava desembainhada, e eu sento sobre o seu peito, e ponho a minha lâmina sobre a sua garganta, não muito diferente de como ele fez comigo. – O que você quer?

Para a minha surpresa, ele começa a rir, ainda com um cigarro na boca.

– Nossa, que sexy. Você quer que eu tire as calças também? Eu tiro! – Eu o fito incrédulo por uns três segundos.

– O que você quer aqui? – Repito a pergunta, com o mesmo tom de antes.

– Olha só, se você quer me matar, então me mata. Mas eu acho que você não vai conseguir.

– Por que?

– Eu consigo contar uns... Sete bons motivos. – Era o número de pessoas que tinha vindo ver o que estava acontecendo.

– Eu farei o que for necessário. O que você quer?

– Olha só, eu só quero sair daqui. Será que você pode sair de cima de mim, seu monte de bosta? – Eu vacilo, por meio segundo. Mas não o deixo perceber. Ele não pode perceber.

– E se eu te soltar o que te impede de fazer o que você fez antes?

– Olha só seu imbecil, eu só quero sair daqui. Agora sai de cima de mim.

– Eu posso ajudar você, se você não fizer mais nada.

– Ah, sim, sim, claro, mas vai ficar aí quanto tempo? Ou você quer que eu tire as calças? – Eu o encaro por não mais que cinco segundos, tentando passar a minha ameaça. Saio de cima dele, sabendo que não consegui. Mas fico de olho. Evito deixá-lo sair da minha vista, e não embainho a minha espada.

Logo depois disso, eu encontro uma mulher peculiar presa numa árvore. Mais uma pessoa encapuzada, e novamente o capuz não era capaz de esconder a sua fronte negra. Por quê, eu não sei. Mas ela precisava de ajuda. Quando me aproximei, vi que era uma armadilha perto da árvore, e não à arvore em si. Não que isso me ajudasse em alguma coisa.

– Me ajuda!

– Espera, eu... – Infelizmente, não sei nada sobre armadilhas. – Vou buscar ajuda. – Encontro um dos homens que enfrentou Kierkegaard mais cedo, o único cavaleiro por ali, com uma espada mais alta que o mais alto de todos nós ali, e com uma armadura digna do seu título. Ou pelo menos foi o que ele parecia. Com sua força absurda, ele destruiu o aparato, e carregou a mulher com uma mão só até o Santuário. Impressionante, mas eu tinha outras coisas para fazer. Ou tentar fazer. Ela estava bem, pelo menos por enquanto.

Aconteceram muitas coisas, nem todas dignas de narração, na minha busca por mais informações. Havia um druida que tirou uma carta da manga, de forma literal, e jogou um futuro à minha frente. Nem me lembro de suas palavras. Araglas apareceu desesperado, na busca por uma arma, mas eu não poderia dar nenhuma das minhas para ele. Eu queria ajudá-lo, mas ele estava perdido demais em seu desespero para que eu o alcançasse. Doni ainda não sabia de nada; juntei-me a ele para que conseguisse convocar uma Deusa, mas as coisas não correram como planejado.

Enquanto conversava, no entanto, um monstro nos atacou. Parecia ser uma serpente anfíbia de três cabeças que cuspia ácido. Apesar dos apesares, eu nunca nem sonhei em enfrentar algo como aquilo. No meu desespero de fazer qualquer coisa para ajudar, eu não fiz nada. Felizmente isso não foi impedimento para os outros cuidarem da besta, mas a minha falta de foco me incomodou um bocado. Mas não por muito tempo; eu estava sempre pensando que eu não tinha tempo.

Depois de mais excursões inúteis, um homem com roupas árabes e uma lança chamado Zaphyr apareceu. Eu fui um dos primeiros a tentar conversar com ele, e apesar de simpático, ele insistia em tentar nos impressionar com a sua magia indecifrável. Araglas tentando desarmá-lo não ajudou muito, claro. Sem conseguir nada de útil, eu logo deixei-o para trás.

Não muito tempo depois conheci um velho cego chamado Contramestre, que estava acompanhado de uma garota. Ele diz que seria capaz de me ajudar, se eu o ajudasse a ajudar aquela que o acompanhava. Sendo a primeira resolução decente desde que apareci na Fronteira, prontifiquei-me em tentar descobrir algo, começando pelo Zaphyr; quando cheguei lá, Kierkegaard já estava do lado dele, e eu senti uma terrível energia negativa, maldosa, perversa, tal qual eu nunca senti antes. Até mesmo o ser humano mais insensível seria trespassado pela sensação maligna de estar perto do Capa Azul. Não fiquei muito tempo tentando ter qualquer tipo de conversa com o árabe, e logo me retirei para meditar a respeito do que eu presenciei e confirmei: Kierkegaard estava prestes a fazer algo muito ruim. Provavelmente envolveria Zaphyr, mas ao mesmo tempo em que era provável que este foi o responsável por essa aura perturbadora instaurada em Kierkegaard, eu soube que teria que focar o Capa Azul primeiro. E não demorou muito: logo eu o vi tentando se esgueirar na direção da borda da Fronteira. Eu o segui, e comecei a sussurrar:

– Eu sou dono e senhor do meu destino, e nada permanece em pé diante da minha vontade! Derrubar! Derrubar! – Não espero para ver como ele reage ao primeiro projétil. Logo estamos na mesma posição de antes: sentado no peito dele, com a minha espada sangrando a sua goela. Mas ele não mudou.

– Nossa. Acho que estou começando a ficar excitado, hein? – Eu arranco o seu cigarro fora antes que voltasse a rir.

– O que você quer? O que você está planejando fazer?

– Isso de novo? Olha só seu imbecil, não te interessa. Eu só estou tentando sair daqui. E quanto mais cedo você sair de cima de mim, mais cedo eu saio daqui, e fica tudo bem!

Novamente, eu hesito. Eu deveria matá-lo. Eu deveria mata-lo, mas eu levanto e vou embora. E esse foi o meu erro.
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2 – Convicção

Mensagem por Arthur em Ter Ago 29, 2017 5:55 pm

Não foi muito tempo depois.

Eu não precisei olhar para trás para saber quem foi.

Só senti a minha garganta abrir, e as minhas mãos, a minha roupa, a minha boca, o meu peito, tudo ficar encharcado. Eu não vou morrer. Eu não posso morrer. Não agora. Eu sou Phoe, filho da Noite, e Chama... Herói da Chama! Eu...

Engasgo com o meu próprio sangue, até tudo ficar preto.

Mas eu não posso morrer, eu digo para eles. Mas a mulher da árvore não me ouve.

Eu sou fogo e sangue.

Eu não vou morrer, eu digo para eles. Mas a loba não me ouve.
Eu vejo a escuridão, a raiz, a corrente.
Não agora, eu digo para eles. Mas o cavaleiro não me ouve.
Eu ouço a dor, o cansaço, o sofrimento.
Eu não posso estar morto, eu digo para eles. Mas a sacerdotisa não me ouve.
Eu cheiro o enxofre, a podridão, o mel.
Eu não posso estar morto, eu repito para mim.
Eu provo o pó, a brasa, o julgamento.
Não agora, eu repito para mim.
Eu toco o arder, o tremor, o suplício.
Eu não vou morrer, eu repito para mim.
Eu sinto o desespero.
Eu não posso morrer, eu repito para mim.
Eu sinto a Chama.
Eu vou viver, eu digo para eles. E a sacerdotisa ouve.
Eu sinto a Chama!
Faça o que tiver que fazer, eu digo para eles. E a sacerdotisa concede.

Quando eu abro os meus olhos, Kierkegaard está lá. Se o mundo dos mortos não pode me conter, tampouco o Santuário me conterá. Eu o derrubo para fora do Santuário, e antes de encostar no chão, minhas espadas já estavam desembainhadas. Eu grito.

Grito.

Grito, e não paro de gritar, não até Kierkegaard sofrer um décimo do que eu presenciei no inferno. Depois de terminar com ele, eu encaro arfando o monte de carne dilacerada na minha frente.

Foi necessário que o cavaleiro começasse a mexer naquilo para que eu esboçasse uma reação.

– O que você pensa que está fazendo?

– Levando-o para o Santuário.

– Por que?

– Para ressuscitá-lo. – A sacerdotisa responde.

– E por que diabos você faria uma coisa dessas?

– Eu trato todos iguais. Todos merecem o mesmo. Assim diz a Deusa.

– E você ressuscitaria um assassino?! Ele me matou!

– E você matou ele. – A minha incredulidade começa a se transformar em raiva.

– Antes que ele matasse outra pessoa, sim. Você não pode ressuscitar pessoas más! Você não pode simplesmente fazer o bem sem olhar a quem, assim!
Foi nesse momento que o pomo da espada do Cavaleiro me atingiu.

~

Quando eu acordo, Kierkegaard ainda não está ressuscitado. Ainda bem. Ela precisaria de muito mais esforço e tempo para conseguir ressuscitá-lo. No entanto, eu estava dentro do Santuário. E o momento de vontade irrefreável já passou. O que significava que...

– Olha só, você não pode fazer isso. Por favor não faça isso. – Eu estava dócil como um coelho.

– Por favor, você tem que entender que isso não será bom para nós. Por favor. Não faça isso. – A mulher não estava respondendo, mas também não estava se preparando ou qualquer coisa similar. No entanto, eu não ficaria satisfeito até ouvir da boca dela que ela não ressuscitaria Capa Azul.
Felizmente, Araglas apareceu.

– Araglas, você pode dizer para essa mulher que nós não podemos ressuscitar o Kierkegaard?

– O que? Senhor Phoe, nós não temos tempo para isso! Venha comigo. – Ele põe o monte de carne nas costas e me leva para fora do Santuário. Conforme eu passo pelos seus limites, tudo o que eu estava sentindo antes volta comprimido num instante.

– Nós temos que queimar o corpo desse filho da puta desgraçado! Agora! – Araglas me encara assustado. Eu não tenho tempo para isso. – Agora! Vamos! Ponha ele ali! – Araglas deposita o monte de carne em cima de uma mesa de pedra que resistiu os anos de ruína da cidade. Eu, envolto em virtuosa ira, começo a carregar troncos de madeira, tudo o que sobrou dos jardins da cidade. Capa Azul não merece uma pira, não merece nem um monte de terra sobre o seu pútrido cadáver, mas ele precisa virar cinzas. Não posso deixar que ninguém o ressuscite.

Quando a pira está pronto e eu fico de pé sobre ela, a energia já surrupiando os meus braços, Araglas me interrompe.

– Senhor Phoe, será que eu posso dizer algumas palavras para o Capa Azul? – Eu suspiro.

– Ande logo com isso. – Ele assente com um menear de cabeça e começa:

– Kierkegaard era um homem... Confuso. Eu espero que ele vá para um lugar melhor, e que ele possa entender melhor o que tinha entre nós.

– Queime no inferno. – Acendo a pira.

No entanto, quando o cheiro de carne queimada começa a preencher o ar, eu sinto uma presença. Uma presença inacreditável e familiar. Não. Isso não é possível.

– Eu – sua voz estava mais grave, mais vil do que nunca – assombrarei vocês até o fim de sua consciência. Todo dia eu estarei lá. Toda noite eu estarei lá. E eu serei o seu inferno. Vocês vão sofrer. Vão sofrer até não aguentarem mais, e depois irão sofrer em dobro. Eu nunca os deixarei em paz! Nunca!

A brisa já soava o seu terror infinito. O mundo todo estava mais escuro, muito mais escuro do que o pior crepúsculo, do que a tenebrosa meia noite, e eu não estava certo do que eu via. Meu corpo tremeu, até que eu não estava mais em pé. Até eu não sentir mais onde eu estava, ou ouvir quem lá estava, ou saber o que lá acontecia.

Mas os sussurros começaram.

E com os sussurros, veio sofrimento. Pequeno, mas crescente. Crescente como o vento, como a tempestade que me assolava naquele momento. Com a tempestade, veio o sono. Com o sono, veio o tempo. Com o tempo, veio a loucura. E com a loucura, a morte já me espreitava.

E a Chama estava prestes a se apagar.
A Chama.
As palavras.
As palavras que eu li, tantos anos atrás.
As palavras, gravadas em fogo, gravadas em aço, gravadas como palavras de poder em meu tomo.
As palavras que comecei a recitar com a mais pura e brutal convicção:
– Do fundo desta noite que persiste
A me envolver em breu – eterno e espesso
A qualquer deus – se algum acaso existe,
Por mi’alma insubjugável agradeço.

Nas garras do destino e seus estragos,
Sob os golpes que o acaso atira e acerta,
Nunca me lamentei – e ainda trago
Minha cabeça – embora em sangue – ereta.

Além deste oceano de lamúria,
Somente o Horror das trevas se divisa;
Porém o tempo, a consumir-se em fúria,
Não me amedronta, nem me martiriza.

Por ser estreita a senda – eu não declino
Nem por pesada a mão que o mundo espalma
Eu sou dono e senhor de meu destino
Eu sou o comandante de minha alma.

Toda noite que você vier me atormentar, eu o enfrentarei. E toda vez que eu o enfrentar, eu o vencerei. E toda vez que eu o vencer, eu me tornarei mais forte. Ouça minhas palavras, Kierkegaard! Nada irá me deter!


Phoe prepara a pira e incendeia o corpo de Kierkegaard.
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3 – Carga

Mensagem por Arthur em Ter Ago 29, 2017 5:58 pm

Um homem vem falar comigo. Eu não me lembro do que ele diz.

Eventualmente eu me levanto. Uma mulher chamada Abril se aproxima de mim. Como eu sei o nome dela?

– Está tudo bem?

– Vamos mostrar para ela que não está tudo bem? Vamos? Hihihihehehahahaha

Por alguns segundos, eu não sou capaz de aceitar o que está acontecendo. Não está acontecendo. Não tem nada acontecendo. Então eu não reajo.

Então eu sinto a faca ser plantada nas minhas costas. Arquejo de dor, perco o equilíbrio e caio. Consigo me rastejar para longe, e eventualmente me levantar.
Capa Azul estava andando lentamente na minha direção, sua expressão tão diabólica quanto a sua voz.

– Você está morto. Duas vezes morto, duas vezes vencido. Você está morto!

– Eu sou o inferno. Eu vim por você, Phoe. Eu vou te levar comigo. Você vai sofrer. Sofrer!

– Não. Não... Não, não, não, não não não não!

– Está tudo bem.

– Você está imaginando coisas.

– Alguém ajuda ele!

– O que está acontecendo?

– Você vai ficar bem!

– Você quer que eu os mate primeiro? Eu posso fazer isso. Por que não começamos pela Ypa? Ou quem sabe Saphira. Talvez Abril! Hihihahahaha

– Não. Não...

– Olhe para mim. Isso é coisa da sua cabeça. Não está acontecendo nada. Vai ficar tudo bem.

Não. Não vai ficar tudo bem. Ele está aqui. Ele está morto, mas ele está aqui. E quanto mais eu olho, pior ele fica: eu vejo cada corte, cada filete de sangue, cada brasa, tudo se fundindo de forma malévola à sua figura, até ele ser o Demônio personificado.

Não. Não, não...

Não...

A Chama.
Eu tenho que...
Cerro os meus punhos.
Eu tenho que enfrentá-lo!

– EU VOU ACABAR COM VOCÊ. EU VOU DESTRUIR TUDO O QUE VOCÊ É, TUDO O QUE VOCÊ PREZA. VOCÊ SERÁ EXTINGUIDO EM DOR E SOFRIMENTO! HAHAHAHAHAHAHA

– Olhe para mim. Está tudo bem. Está tudo bem. Shh, venha cá. Feche os olhos. Está tudo bem. – Tão logo eu me lembro da minha condição, Abril afugenta-a duplamente com o seu carinho. E eu me entrego em seu abraço. Soluço, sinto os meus olhos marejarem, mas nenhuma lágrima desce pela minha bochecha.

Quando os abro e a encaro novamente, a minha força está de volta.

– Obrigado. Eu não... – Ela me ajudou. – Obrigado. – Isso basta.

Kierkegaard está morto. Aquilo é só uma manifestação da minha maldição, do meu peso. Mas eu tenho dito e feito: toda noite eu a irei enfrentar, toda noite eu a irei vencer, e todo dia amanhecerei mais forte.

– Eu estou bem. De verdade.
Eu não estava errado. A Chama me trouxe aqui com um propósito. Acabar com o que ameaça a Chama dos outros, e me tornar mais forte. Se a Fronteira é o lugar para isso, aqui eu permanecerei, até que outro lugar clame mais forte pela Chama. Eu irei guardá-la, trazê-la, instaurá-la, até o meu último bravo suspiro. Custe o que custar.

Sem hesitação, sem desespero. Esse é o meu dever, essa é a minha carga.
Eu sou dono e senhor do meu destino.
Eu sou o comandante da minha alma.
Eu sou o Herói da Chama.

Phoe, o herói da Chama!
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