Prólogo

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Prólogo

Mensagem por rayjbraz em Sab Set 16, 2017 11:26 am

Devo dizer que sou de certo modo um inexistente, costumo passar despercebido entre os comuns e acho que entre os incomuns também.
Quando falo “inexistente”, não é de brincadeira. A alguns meses terminei o meu curso na  Miskatonic, mas para a minha surpresa, no dia da formatura, não me entregaram o diploma. Nem me notaram lá entre os formandos. Acharam que eu tinha  abandonado o curso, mas juro que estive lá todos os 10 semestres, e saiba você, que meu boletim era impecável e certamente deveria me formar com louvor se tivessem lembrado de mim.
Dentro desse mistério comecei a duvidar da minha própria existência, deixei de me preocupar com o diploma e fui atraído pela biblioteca da universidade já que tecnicamente eu ainda sou um aluno da universidade.
Em vez de ir à coordenação reclamar por um canudo de papel com meu nome escrito nele, resolvi viajar pelas quase infinitas estantes dessa magnífica biblioteca. Algumas dessas estantes são tão velhas e cheias de pó, que é difícil acreditar que alguém esteve aqui nesse último século. Acho que combinam com meu estado de humor. Esses livros velhos são a desculpa perfeita para escapar do meu medo de seguir em frente com a minha formação como ser humano padrão.
Entre os relatos e tratados mais absurdos da biblioteca eu curava a minha angústia e falta de jeito para existir lá fora no mundo real. Já que eu já estava “formado” decidi me aventurar em novos temas de pesquisa. Ansiava por encontrar um tema que me arrebatasse e encontrei. Eram os livros mais empoeirados que achei, dentre eles haviam muitas histórias manuscritas, pareciam diários de bordo antigos, mas estranhamente não tinham datas específicas, o que seria mais comum nesse tipo de literatura, mas era apenas numerado em sequência. Comecei pelo volume nove, mas por mais que procurasse nunca achei os volumes anteriores. Por mais que eu lesse e lesse, nunca havia um final. Percebi que se tratava de uma seção inteira da biblioteca, ocupada apenas com esses diários de bordo. Jurei para a minha sanidade, que não poderiam ser do mesmo navio, pois para que tal absurdo fosse possível, esses diários deveriam ter sido escritos por milênios e esse navio deveria ser o navio mais duradouro de toda a história.
A estética de escrita era sempre a mesma, muito provavelmente da mesma pessoa. Mas, como poderia ser? Diferente de mim, o narrador parecia alguém muito real, ele estava presente nas histórias de tal forma que só poderia se tratar de alguém de carne e osso. O narrador contava muitas histórias e se colocava nelas em primeira pessoa. Eram histórias sobre estar acordado no mundo dos sonhos, práticas de magia e filosofias libertadoras que qualquer um em sã consciência se recusaria a aceitar, mas tudo com um convencimento inegável. Falava de viagens entre histórias já conhecidas e desconhecidas, relatos de guerra do passado, biografias, descrições de culturas nada ortodoxas. Parecia uma verdadeira enciclopédia de tudo.

Todas aquelas histórias me levavam a acreditar em possibilidades além do que se possa imaginar e começaram a abrir minha percepção para o novo. Com o tempo aquilo tudo me arrebatou e eu estava quase convencido que se tratavam de histórias reais. Comecei a reparar que as gárgulas que guardam domo da biblioteca da Miskatonic nem sempre estavam na mesma posição no dia seguinte. Nas minhas caminhadas noturnas em direção aos dormitórios no outro lado da cidade universitária, reparei que havia pessoas estranhas saindo pelos bueiros. Até mesmo os latidos dos cães pareciam trazer mensagens criptografadas. O noticiário caçoava das suspeitas de que as matilhas de cães da cidade andavam agindo de forma muito planejada. Coisa que animais normalmente não fariam sem o devido treinamento, eu sinceramente, ficava alarmado com tais coisas, mas as pessoas normais apenas acham graça e seguiam suas vidas, tudo isso parecia piada, ninguém parecia achar essas coisas estranhas.
Nas minhas caminhadas para casa, já na a calada da noite. Coisas estranhas aconteciam. E normalmente quando ninguém estava por perto, eu nunca pudeia confirmar se aquilo se tratava de alguma miragem causada pelas minhas vistas cansadas de leituras . Mesmo quando as pessoas estavam por perto, era nítido em suas feições ou reações que aquilo não era nada estranho para elas. E se eu as abordava para tentar arrancar alguma reação de suas feições apáticas. Será que apenas eu percebo tudo isso? Será que eu realmente existo, será que eu não estou agora em uma cama de hospício e isso tudo se trata de uma ilusão, uma historinha que minha mente fértil conta para si própria, apenas para se manter funcionando. Não! Eu sinto o estado de vigília. Eu sei quando estou dormindo, é diferente! Ou estou apenas tentando me enganar?
Não sou do tipo que sonha com fatos cotidianos. Meus sonhos são como os de criança, são fantasiosos. Por exemplo, tenho sonhado repetidamente que estou em um navio que navega em meio a um denso nevoeiro, ele está repleto de gente interessante, mas não é como se estivesse realmente lá, sabe? Estou como espectador. Eles não são capazes de me ver, mas as vezes sinto que o tal capitão do navio escuta meus passos e sempre acordo palpitando com essa possibilidade. Se ele for o mesmo dos diários, certamente aplicará algum castigo excêntrico a qualquer tripulante clandestino em seu navio.
Juro que se eu voltar lá essa noite, vou testar se isso se trata de sonho ou não, implorarei por lugar a bordo. Sou um tanto covarde, mas não há nada a perder. Ninguém se machuca nos sonhos afinal.
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