Relato - Miranda - Por Thaís

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Relato - Miranda - Por Thaís

Mensagem por Thaís em Sab Set 02, 2017 9:21 am

Mais uma fuga arrastada, mais uma batalha perdida. Elas nunca terminam, o dia nunca amanhece e somente eu estou viva. Sem saber o que me mantém assim.

O cenário devastado abraça as roupas rasgadas e sujas, o olhar perdido de Miranda. Perdido até avistar Max. É difícil acreditar nas coincidências que lhe reserva a vida pois para ela não existem coincidências. O reencontro é confuso, inesperado como uma surpresa desagradável, atropelado exatamente como estão as emoções em seu coração. “Esta é Talita, sua filha!”.

Eu vivi para reencontrá-la. O que eu faria para conquistá-la? Alguém com o laço de sangue, seria mais fácil. Eu mesma não caí nessa algumas vezes? Ela era minha filha e isso deveria ser uma carta significativa. Como explicar o que ela poderia estar sentindo? Ela estava com Max, o que isso quer dizer? Com que tipo de mentiras sobre mim ele pode ter alimentado a menina? Não, ele não faria isso… Onde está Fernanda, sua tutora? Não a vejo junto ao grupo. A quanto tempo Talita está sem Fernanda? Será que fiz bem em recomendar que elas deixassem a toga das sacerdotizas do Uno? Elas precisavam se esconder, sim, foi o melhor a ser feito.

Todas as perguntas vieram em um piscar de olhos, com a mesma velocidade que a postura de Cardeal lhe assume o corpo em um reflexo de algo passado no qual ela prefere acreditar que ainda exista. A resposta aos seus questionamentos vem na forma de um abraço e choro. A demonstração de afeto de Talita aquece mas não desarma Miranda. O coração marcado pela guerra, sem casa, os conceitos de família se resumem a uma oração já esquecida. A mente preparada para se posicionar, se esconder ou acalentar desconhecidos como uma mentira contada mil vezes. Talita parece uma realidade distante, falsa, mas possivelmente útil. Talvez não em seus propósitos originais, mas ainda assim importante.

Max me atualiza sobre a formação de Talita. Ele nunca deixou de ser um soldado do Uno e aparentemente tampouco Talita. O Uno trás a dor para crescermos, o sofrimento é um caminho de purificação e a família é o seu princípio. O Uno cobra e provê conforme nossas necessidades. E foi essa crença que me trouxe de volta até Talita. Por dentre a noite mais escura eu vejo a luz Dele voltar a brilhar. Eu que duvidei, preciso compreender. Talita é meu presente.

Na segurança da fogueira diversas pessoas se reúnem. Nem todas são de Chambordeaux, na verdade pouquíssimas sequer conhecem as palavras de Honra, Sabedoria e Glória. Onde estou? Max propõe uma aliança. Ele sabe que esse elo nunca se rompeu. Não há mais Cardeal aqui. Eu preciso assumir isso. Ainda há Talita e Elise.

Grupos se formaram para explorar as proximidades. Max se aproxima de Miranda propondo mais do que um acordo ou trégua. Com a experiência de batalhas na Zona Fantasma, ambos sabem que a união é necessária para a sobrevivência. Miranda orgulhosa respira aliviada quando Max toma a iniciativa. Ele nunca foi de esperar ou dar espaço para segundos pensamentos ou exitação. Mas ela tampouco era a única aliviada. Os olhos de Talita falavam mais do que palavras seus sentimentos sobre o encontro que ela presenciou. Como mãe, mesmo tão distante, Miranda percebe as intenções da filha de que aqueles laços fossem mais duradouros do que ambos poderiam imaginar, ou querer.

Quando entramos no escuro rezei ao Uno por suas proteções. Regina, que vinha com o destacamento de Max, parecia me tolerar mais do que qualquer outra coisa. Me pergunto se era por Windhelm, mas o que importa agora sobre o que passou? Um pouco mais a frente uma árvore terrível se erguia diante de nós. Imponente, alta e morta. A morte pendurada em cada galho, dezenas de enforcados, do tamanho de um livro e provavelmente outrora com tanta história quanto um, agora vazios, sem rosto, sem carne, sem vida. Um aviso ou uma ameaça sobre o que nos espera.

Há uma segunda fogueira a uma certa distância. Rumores se espalham sobre o seu perigo, uma armadilha de insetos. Miranda não acredita completamente. Ela via muitas mortes, e isso não representava nenhuma novidade. Ouvia os mortos e pensava que estão vivos, ouvia os vivos e pensava que estão mortos. Essa é a linha tênue do esquecimento. Como fez tantas outras vezes se entrega nas mãos Dele e procura entender uma sombra perdida. Ela é cautelosa, como sempre fora nas outras situações, porém tem mais o que perder agora. Com sua atenção dividida dá as costas à sua própria morte.

Dentro de sua mente ouve cada vez mais vozes ao seu redor. Muitas delas. Vê uma árvore inteira com pessoas sem rosto penduradas, a Árvore dos Enforcados. Gritos. Pessoas implorando socorro. Onde Ele está?A sua frente uma mulher caminha arrastando dois corpos amarrados ao seu. No céu nuvens estouram em luz e destruição. A boca inundada de sangue prende os próprios pedidos de ajuda, sua prece e seu orgulho. Afoga-se no líquido rubro. Rubris. Sangue e mais nada serão inimigos. O tempo para em agonia infinita. “Não se entregue, irmã.”
Eu queria dizer que aquela voz não era de Windhelm. Sangue. Seria de Robert? Sangue.
“Eu estarei sempre contigo”.

Dizem as histórias que ninguém conhece a dor da morte até ser ressuscitado. E que aqueles que passam por isso constantemente carregam a loucura de muitas vidas. Ela pensa em Max, no tamanho de seu sofrimento. Quanto tempo ainda necessitaria para perceber que a Mãe Misericordiosa nunca poderia dividir papéis com o Pai de punhos firmes? Cada cabeça uma mente. Se o pai lhe deveria mostrar a dor, a mãe deveria acalentar. Onde estava o seu acalento agora?

Se eu voltei, ainda não terminei o que devo por aqui. Não me entrego, não estou sozinha. Reconheço o poder potencial Dele nas pessoas ao meu redor e me recomponho naquilo que me fez o que sou. Se Ele estiver forte, estaremos fortes. Erion possui uma força importante e vejo em Yahel uma iluminada por Ele, mesmo que não O conheça por Seu nome. Yahel tem em seus círculos o poder e o mistério do Uno. Eu era Miranda de novo. Falei com os vivos perdidos nas sombras dos Antigos, com os mortos que não compreendiam o seu papel no mundo. Em minha posição ainda precisava levar uma palavra a Max. Estrategicamente talvez fosse uma besteira, mas eu precisava fazer aquilo. Ele precisava saber que seu filho ainda estava vivo. Era um gesto da Mãe.

_______________________

Um outro anjo apareceu. Os tirou daquele lugar onde tudo era morte.

A visão de Alatriste remexia no âmago de Miranda. Os dois haviam selado uma aliança no passado que não resultou em Sabedoria, Honra ou Glória. Somente guerra. A postura calculista de seu treinamento de sacerdotisa controlava as emoções conflitantes e desgastadas. Esperança e abandono. Alatriste se dizia autor da fuga dos personagens da Zona Fantasma. Sua lábia poderia seduzir até mesmo os mais experientes e empáticos, porém era de conhecimento de todos, mesmo que somente em seus íntimos, que tudo deveria ser uma troca. E que ninguém havia saído sem que um outro alguém tivesse entrado. Trocas Equivalentes.

A entrada na Fronteira foi confusa. Mas sobretudo libertadora. O cheiro da grama, o vento fresco que passava entre as brechas de seu vestido a fizeram esquecer por um momento de todo resto. O lugar resplandecia para ela a memória da terra perdida de Chambordô e concomitantemente projetava as possibilidades futuras ao lado de Talita. Em contrapartida sentiu memórias sendo materializadas dentro de seu colar, o mesmo que um dia a ajudava a manter a concentração do Mana. Seu caderno ficara mais pesado tornando sua bolsa um fardo. Tão rápido aquelas ilusões se formaram em seu olho mental, tão rápido se foram.


Fui atrás de Alatriste tirar alguma satisfação sobre A Guerra. Ele havia nos traído. Exauriu os recursos ricos de nossa terra, nos abandonou aos espectros e celestiais, desapareceu e levou junto meu irmão. “Você vê outros celestiais aqui? Me diga o nome de todos que você conhece.” ele disse. Eu não preciso saber o nome de cada sacerdote em cada templo. Mas agora eles também se foram, pois era isso que Alatriste estava implicando. Eu não consegui preencher uma mão com nomes. Todos carregados e espalhados pela Zona Fantasma. Fadados ao esquecimento. Se eu tivesse sido bem sucedida no extermínio de Windhelm desde o início é provável que as coisas tivessem sido diferentes. A fortaleza que construí para governar amoleceu com a presença dele.

As memórias materializadas (ou ausência delas) afetam com intensidade os outros presentes. Max não se encontra conosco e Talita se prova uma verdadeira guerreira. Vejo a Cigana em contato constante com Alatriste. Audi me diz que o poder das cartas de Alatriste vem da caixa que as guarda e a entrega para Solita, uma maga que já estava se esforçando para manter as pessoas conscientes na situação que estávamos.

Eu mesma estive com uma lembrança dela. E era tão viva quanto tantas outras que eu tinha. Fui então até Kimora com uma oferta que certamente a traria para o Uno. Sua família precisava de ajuda e agora eu tinha a ferramenta. O Uno age por mim. Entretanto Kimora recusou. Falou algo sobre um laço ou não ser o momento. Algumas coisas nem mesmo eu posso impor, “... da justiça Santa, da escolha consigo”. Lamento por Kimora pois sei que quanto mais tarde, mais difícil. Que o Uno me ajude a compreender o caminho dela.

Ainda nos eventos desse dia vi Kimora absorver Martis, embora eu mesma não tenha compreendido exatamente o que aconteceu. Fato foi que uma carta surgiu, um 6 de paus. Essas cartas são poder por aqui. Vi a chance na minha frente ser levada por outra pessoa. Vi a última chance do resplendor de Chambordô ir embora quando começou a chuva ácida e Kimora usou a carta que fez surgir um reino cujo castelo parecia saído de um conto de fadas.

Ouvi me chamarem. De dentro de mim me chamavam com força e desespero. Fechei os olhos e vi a Zona Fantasma, vi a morte se aproximando e chamei pelo Uno por suas bênçãos e conforto. A guerra me deu prática para reconhecer e tratar os caídos. Acho que era Ohn que lá estava, embora pudesse jurar que ele estivesse conosco na Fronteira. Mas não estava de volta lá eu própria? Será que o descontrole que Ohn passava na Fronteira o havia jogado para Zona Fantasma? Trouxe o calor do Uno para seu corpo, tratando-lhe os ferimentos. Uma força começou a me expulsar. Não havia porque permanecer na Zona Fantasma.
Quando achei que retornaria para a Fronteira foi só escuridão. Flashes. Confusão. E prisão.
avatar
Thaís
Admin

Mensagens : 33
Data de inscrição : 23/08/2017
Idade : 30

Ver perfil do usuário http://tavernalarp.forumeiros.com

Voltar ao Topo Ir em baixo

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum